25/05/2015

CRÔNICA #001 - Minha primeira crônica ou o geógrafo que tentou ser cronista


16h14min, ou melhor, já são 16h15min. No meio tempo entre pensar em começar a escrever minha primeira crônica e iniciá-la de fato, um minuto já se foi. As dúvidas certamente surgiriam no decorrer do processo. Afinal, sou professor de geografia, formado em 2014, mas com o título adquirido de fato em 2015. Mas esta já é outra história, quem sabe até uma nova crônica. Atualmente sou mestrando, ou estudante de mestrado, como preferir, ainda na área das ciências geográficas e agora mais especificamente trabalhando com cidades médias. Tema que também pode dar caldo para muitas outras historietas.

E é justamente na transição da graduação para o mestrado que surge este interesse em escrever algumas crônicas, das quais esta será a primeira, sem dúvida. Fiz meu curso superior em outro estado. Mais ou menos 2700 km separam-me de minha terra. Aqui neste “novo espaço”, que os geógrafos não me condenem por usar um conceito tão precioso sem o rigor teórico, passei a perceber um certo interesse em escrever algo diferente dos importantes e necessários textos acadêmicos. Alguns temas também chamaram-me a atenção – especialmente as casas de madeira da Vila Santa Helena –, e por não ter um conhecimento teórico e bibliográfico amplo o suficiente para escrever academicamente sobre eles, afinal sou um recém-chegado, pensei em usar de um “ramo da literatura”, peço agora que os letrados, literatos ou qualquer outro termo que seja o correto, também não me condenem. Escolhi a crônica. E esta é a minha primeira.

Alguns fatores foram necessários para que este texto fosse escrito. Primeiramente, eu já ter tido algum contato com este tipo de texto. Um dos meus professores do ensino fundamental adorava Stanislaw Ponte Preta. Em segundo lugar, com a minha mudança de cidade, passei a morar em uma república estudantil, com três pessoas, contando comigo. Um deles cursa Letras, dá aula de literatura num cursinho popular e tem algumas estantes e prateleiras cheias de livros. 

– Pelo menos uma deles deve ter uma mísera crônica! – pensei. Tinha razão! 

Ao comentar com o gajo sobre o tal interesse em ler e escrever crônicas, logo ele me trouxe uma coleção de livretos com alguns textos. Drummond, Veríssimo, Braga, Sabino… Li alguns. O pintinho, O homem nu, outros textos e mais um sobre o censo demográfico… Natural que um geógrafo queira ler tal crônica. Bons textos, me empolgo com a ideia. 

Na outra noite, enquanto eu procrastinava as atividades do mestrado no computador, o gajo traz-me dois livros. Inicialmente não mexo neles, estou muitíssimo interessado em vídeos sobre política, manipulação e blindagem da mídia, movimento dos trabalhadores sem teto (MTST) e ocupações urbanas, afinal, sou geógrafo, como já disse. Mas os livros continuam lá, em cima do sofá, ao meu lado. 

No decorrer da madrugada, ou melhor, no comecinho da manhã, cansado de tantos vídeos, resolvo bulir nos livros. Um deles tem a capa vermelha, diversos nomes – certamente dos autores –, e uma proposta, reunir As cem melhores crônicas brasileiras. Leio uma. Machado de Assis, em O nascimento da crônica. Bom texto, mas já estou com muito sono para refletir sobre o tema. Tiro um cochilo no sofá, acordo e corro para o colchão. 

Depois de um bom descanso, levanto, mexo um pouco no celular, escovo os dentes, como algum coisa e vejo o livro vermelho jogado no sofá. Chegou a hora, vou ler algumas crônicas bacanas e quiçá aprender a escrever alguma. Afinal sou geógrafo e está é minha primeira crônica. Talvez deva consultar manuais de literatura ou coisas do tipo para aprender. Leio Millôr, Veríssimo, um pedacinho de Graciliano… 

– Bom livro, vamos ver a introdução! 

(Aqui uma pausa para salvar o arquivo. Notebooks gostam de farrapar com a gente e travar, pifar ou queimar, justamente na hora H). 

Joaquim Ferreira dos Santos convence-me, em apenas um parágrafo e meio, que a crônica também é literatura e que são textos de momento, que dependendo do autor e da qualidade, ficam para sempre. E completa que a Aula de inglês, de Rubem Braga, é “uma crônica de fala mansa, sem aparentar pompa ou qualquer circunstância, como é típico da espécie, mas [que] está entre os cem mais de qualquer coisa escrita neste país”. Paro de ler imediatamente. 

– Tenho que ler esta danada! E é agora! – imagino com grande ansiedade.

Folheio o livro com destreza e tomado por agonia não encontro o texto. Suspiro. Vou ao sumário e encontro o tal escrito de fala mansa. Chegou a hora!

...

Realmente, Braga consegue ser simples e sensacional ao mesmo tempo! Talvez eu consiga escrever algo tão simples, mas certamente não tão bom. Já que também não sei o que diabos é um “handkerchief”. Posso tentar me arriscar e com minha escrita mansa escrever uma crônica minimamente adequada. Afinal, sou geógrafo e esta seria minha primeira crônica! 

Presto-me ao desafio. Ligo o computador, sento-me no colchão e abro o novo arquivo de digitação. Livro vermelho de um lado, celular para ver a hora do outro. 

16h14min, ou melhor, já são 16h15min.

Anthony Almeida | 25.03.2015

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